Theatro São Pedro - Porto Alegre

27 de junho – Aniversário do Theatro São Pedro

Desde o período colonial, os governantes e a população da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul desejavam a construção um teatro que abrigasse as diferentes manifestações culturais.
Manoel Antônio Galvão, Presidente da Província em 1833, emitira uma carta de título de doação de um terreno no centro de Porto Alegre para o início das obras do Theatro São Pedro, com o projeto arquitetônico de estilo neoclássico de Filipe de Normann. Contudo, em 1835 eclodiu a Revolução Farroupilha e a obra foi suspensa. A revolução encerrou em 1845 e dois anos depois a construção foi retomada, após a concessão de empréstimo dos cofres provinciais.

Polêmicas e falta de recursos seguiram-se ao longo das obras por anos. Finalmente, dia 27 de junho de 1858 o prédio foi inaugurado sob a presidência de Ângelo Moniz da Silveira Ferraz, o Barão de Uruguaiana. Na ocasião, representou-se o drama “Recordações da Mocidade”. Já em 1862 o Theatro São Pedro tornou-se definitivamente patrimônio público.

O Theatro São Pedro e a vida cultural da cidade sempre sofreram influências da política local. Os conflitos que se estenderam também prejudicavam a vida teatral. Durante a Revolução Federalista, de 1893 a 1895, viveu-se um imenso vazio na programação artística. O palco do TSP ficou praticamente deserto. Mesmo depois do conflito, o público permanecia escondido em suas casas, embora os grêmios voltassem a se apresentar, a plateia não comparecia.

A vida cultural da cidade foi reerguendo-se aos poucos. A curiosidade é que além de teatro, música, e dança, em 1901 ocorreu a primeira exibição de uma película de cinema de Porto Alegre, no TSP. As exibições tornaram-se frequentes até 1908, com o surgimento do Recreio Ideal.

Aos poucos o teatro foi se profissionalizando na cidade, a exemplo da fundação do Teatro do Estudante do Rio Grande do Sul, em 1941. Já o ano de 1950 marca a fundação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA), a segunda mais antiga do país, em atividade até hoje.

Nos anos de 1950, o TSP passou por uma reforma. Recobriram-se os elegantes gradis de ferro dos camarotes com gesso, pinturas nas paredes e uma importante curiosidade, em julho de 1957, inaugurou-se a sede provisória do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) no foyer, permanecendo lá até 1973.

O Theatro São Pedro esteve em ritmo acelerado de apresentações, contrapondo a manutenção da Casa, que era praticamente zero. Os cupins estavam por toda a parte e o apodrecimento da estrutura do TSP era preocupante. Em 1973, o espaço foi fechado devido às precárias condições de segurança e mau estado de conservação.

O jornalista Paulo Amorim assumiu o Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria da Educação do Estado, em 1975, e pediu para que Eva Sopher assumisse a coordenação das obras de recuperação da casa. Como se sabia, não era apenas uma reforma, o prédio necessitava de uma reconstrução, que nem todos do governo eram favoráveis, pois achavam inconcebível investir recursos públicos em um velho casarão em ruínas.

Sob orientação do arquiteto Carlos Antônio Mancuso, todo o miolo do teatro foi retirado. Por anos, restaram apenas as velhas paredes entre os andaimes. Preencheram-se esses vazios aos poucos, à medida que chegavam os recursos, resgatando-se a volumetria e a notável acústica original. Vigas de aço substituíram a de madeira e instalações hidráulicas e elétricas foram inteiramente refeitas. As escadas laterais, originalmente destinadas aos escravos que atendiam seus senhores acomodados nos camarotes, deram lugar a modernas instalações sanitárias. Os gradis foram recuperados e as portas refeitas a partir de seis exemplares remanescentes. A partir de um fragmento de veludo francês, escolheu-se um veludo idêntico para as poltronas.

O lustre foi inteiramente recriado pelo arquiteto, inspirado no original com 68 mangas de cristais. A luminária original possuía um dispositivo para evitar que a cera das velas caísse sobre o público. Tanto cuidado não evitou que o lustre sumisse por um bom tempo, sendo localizado a muito custo na Igreja Matriz de Rio Pardo (RS), sem grande parte dos pingentes de cristal. O lustre atual foi confeccionado na Capital gaúcha, com mais de 30 mil peças de cristal nacional e oriundas da Boêmia. Concluído, ficou com quase 4 metros de comprimento e pesando cerca de 600 quilos, ganhando um mecanismo para subir e descer, possibilitando a limpeza e troca das lâmpadas. A pintura do forro, com motivos da flora e da fauna gauchesca, foi elaborada por Léo Dexheimer, Plínio Bernhardt, Danúbio Gonçalves e Carlos Mancuso.

Os porões do Theatro São Pedro escondem labirintos e paredes originais do teatro, que chegavam a medir 2,5 metros de largura e eram encarregadas de sustentar todo o prédio. Ainda podem-se encontrar trechos destas paredes no Memorial do Theatro São Pedro, que usavam uma argamassa bem peculiar: uma mistura de estrume, cal, leite e areia. Com a reconstrução, aumentou-se a área útil do teatro em cerca de 1.900 metros quadrados.

Em 1982 o Theatro São Pedro transformou-se em fundação, possibilitando a arrecadação de empresas privadas para o desenvolvimento das obras e finalização do projeto. Com a criação da Fundação Theatro São Pedro, em 18 de março de 1982, Dona Eva (como é conhecida) foi nomeada pelo Governador do Estado, como a Presidente da FTSP.
Dia 28 de junho de 1984, Porto Alegre celebrou com grande festa a reabertura do TSP, com a presença de célebres artistas, jornalistas, políticos e personalidades ligadas à cultura brasileira. O discurso de Eva Sopher abriu a cerimônia, seguido da execução do Hino Nacional Brasileiro pela OSPA, regida pelo maestro Eleazar de Carvalho. Logo após, o maestro Radamés Gnatalli apresentou uma composição própria, Sinfonia Popular n°1. Fechando a noite, o grupo gaúcho Cem Modos, encenou o espetáculo O Julgamento do Cupim.

A temporada do Theatro São Pedro teve sequência com a histórica apresentação de Bibi Ferreira em Piaf, com 41 sessões, todas com ingressos esgotados. Estava novamente o TSP recolocado no roteiro cultural de Porto Alegre.
Preocupados em manter vivo todo o trabalho após a reconstrução, criou-se em 1985 uma associação para administrar e auxiliar o estado com a manutenção e preservação da Fundação Theatro São Pedro: a Associação Amigos do Theatro São Pedro (AATSP).

Eva Sopher faleceu em 7 de fevereiro de 2018, contudo, permanecem importantes valores que foram construídos, como uma programação artística plural e de qualidade. Mantém-se ainda o carinho e o respeito por cada profissional que trabalha arduamente na missão de fazer teatro no país.